Por Leandro Uchoas

Há cerca de um ano e meio, um texto circulou amplamente na internet. De autoria do indiano Mayukh Sen no site Broadly, e reproduzido no Brasil pelo Vice, o artigo versava sobre o principal líder da independência da Índia, Mahatma Gandhi. Como eu estudo a vida e a mensagem de Gandhi há anos, e vivi naquele país estudando seu pensamento na universidade criada por ele, Gujarat Vidyapith, muitos amigos me procuraram. Alguns, com o intuito de esclarecer se aquelas palavras de Sen eram verdadeiras. Outros, com o ousado propósito de me alertar sobre um assunto que eu estudo muito, muito mais do que eles. E outros ainda com o também equivocado propósito de apenas denunciar Mayukh Sen, que teria difamado essa espécie de santo hindu – “santidade” essa jamais reivindicada nem aceita por Gandhi.

O artigo ousava apontar os erros de Gandhi. Cometia um erro, logo de saída, ao rotular o Mahatma. Também pudera – nossa sociedade, seja na Índia ou no Brasil, tem mesmo esse hábito de pescar elementos na personalidade complexa de uma pessoa e utilizar esse elemento como uma síntese dele. Nossa sociedade faz isso com as pessoas comuns e com as grandes personalidades. Rotula-se seres que, em verdade, estão em plena e diária mutação. Grande erro. O título do texto foi “Gandhi era um racista que obrigava meninas a dormir na cama com ele”. Com essas palavras, o autor indiano sintetizou a personalidade de um personagem que, sem usar uma única arma, foi o principal líder – embora jamais o único – da luta da Índia pela independência do império mais vasto territorialmente da História, o britânico. Péssima síntese, não?!

Entretanto, eu não queria começar a análise do texto de Sen pelos muitos elementos dele que me causam estranhamento ou repúdio. Queria começar pelos elementos com os quais concordo no texto de Sen. Porque, embora tenha ampla admiração por Gandhi, e me considere gandhista, eu também estou profundamente interessado, assim como o autor do texto, em desconstruir imagens falsas criadas sobre o Mahatma. Gandhi era profundamente humano, e Sen anteviu que seus críticos iriam usar esse argumento, até porque é absolutamente óbvio. Por ser ele um humano como eu, como você e como Sen, ele errou muito. Porém, não conheço um personagem histórico que tenha se modificado tanto, ao longo da vida, quanto o Mahatma Gandhi.

Suas ideias mudaram muito ao longo da vida. Se em algum momento ele se vestia como um “lord”, e exigia ser tratado como advogado, ao fim da vida ele tinha apenas duas peças de roupa, que eram somente pedaços de pano enrolados no corpo. Se na juventude ele, de fato, escreveu textos racistas, terminou a vida defendendo que os negros seriam os grandes defensores de seus ideais não-violentos. Se foi profundamente opressor com sua esposa nos primeiros anos, a alavancou depois à posição de líder da Independência, sua principal “professora” de não-violência, e com posição equivalente à dele em seus ashrams. Se foi profundo defensor do império britânico, a ponto de ir à Primeira Guerra Mundial como enfermeiro para servir a Inglaterra, como suposto “cidadão britânico”, depois se transformou no maior adversário deste mesmo império.

Exatamente por isso, nos livros escritos por ele, e publicados na editora da Gujarat Vidyapith, onde estudei, há sempre a reprodução de um pequeno texto nas primeiras páginas. Neste excerto, Gandhi afirma que, caso encontrássemos duas citações dele que fossem contraditórias, ou mesmo opostas, que ficássemos com a última, porque naquela altura de sua “velhice” ele já não tinha mais nenhum receio de mudar de opinião – palavras dele. A trajetória pública de Gandhi durou quase meio século. Se rotular qualquer pessoa é uma armadilha perigosa, torna-se erro primário fazê-lo a uma personalidade assim.

Convergências
Por que acho interessante o artigo de Sen, apesar de relatar inverdades ou verdades deslocadas de contexto? Acho interessante porque ajuda, em certo sentido, a desconstruir a imagem mítica do Mahatma. Na Índia, e mesmo no ocidente, Gandhi é visto como uma espécie de santo, cujas palavras de sabedoria e exemplo de integridade e de vida simples deveriam servir como norte à humanidade. Acredito que há certa verdade nisso – tanto que estudo sua vida, e tento tomá-la como referência em múltiplos aspectos. Mas há contradições que precisam e devem ser desconstruídas. Até porque ele mesmo, em seu livro “Minha vida e minhas experiências com a verdade”, que é vendido como se fosse sua autobiografia, Gandhi escolhe alguns recortes biográficos para mostrar, em grande medida, suas próprias falhas (algumas delas graves). Ele mesmo, portanto, achava interessante sublinhar seus limites.

Gandhi realmente teve momentos machistas? Sim, eles os teve. Profundamente machistas. Porém, fica muito claro como lutou contra essas tendências, mesmo vivendo em países tão arraigadamente machistas (até hoje), como Índia e África do Sul. Por isso, ele produziu avanços claros. Gandhi escreveu textos racistas? Sim, ele o fez, quando jovem. Mas após a profunda metamorfose que sofreu na vida, arrisco dizer que ninguém fez mais pelo combate à opressão étnica do que ele ao longo do século XX. A personalidade de Gandhi foi moldada historicamente a serviço da construção do mito de um líder perfeito? Sim, isso aconteceu. Mitificar Gandhi era interessante para políticos e historiadores. Mas ele jamais foi cúmplice dessa mitificação, esforçando-se cotidianamente para desnudar seus próprios limites.

Divergências
Mesmo havendo alguma convergência entre o que penso e o que escreveu Sen, é evidente que há muito mais divergência. O texto de Sen é repleto de inverdades, de verdades retiradas de contexto, e de interpretações interessadas de fatos e ideias de um outro momento histórico. Embora não conheça pessoalmente o autor, ouso acusar algumas das ideias que defende de desonestas e mal informadas.

Quando chegou na África do Sul para ser advogado, recém-formado na Inglaterra, Gandhi se vestia como um integrante da elite britânica. De fato, encontra-se em seus textos dessa época citações que podem ser interpretadas como algo profundamente racista, de quem considera os negros sul-africanos uma etnia inferior. É preciso, em primeiro lugar, entender as circunstâncias históricas. Neste período da História da humanidade, ao final do século XIX, não eram poucos os que consideravam os negros inferiores, especialmente nestes países. Isso não justifica o racismo, mas é preciso ter em mente essas questões históricas.

Porém, ao mesmo tempo, Gandhi sofria o racismo em sua própria pele. O episódio que o despertou para o ativismo político é a síntese disso. Ele tinha uma passagem para a primeira classe de um trem, mas não foi permitida sua viagem nos melhores vagões, por ter ele a pele escura. Ele foi lançado do vagão em movimento, na cidade de Petermaritzburg, próxima a Durban. Poucos dias depois, quase foi expulso de uma diligência pelo mesmo motivo. Gandhi não era branco, e foi vítima de racismo mais de uma vez. A África do Sul, onde vivia nesta época, é ainda hoje um dos países mais racistas do mundo, tendo sustentado até 1994 o vergonhoso regime de exclusão do apartheid.

Gandhi amadureceu neste debate, a ponto de se tornar um dos maiores críticos do racismo, especialmente contra os párias ou intocáveis (ao contrário do que diz Sen). Em 1936, em diálogo com o líder negro norte-americano Howard Thurman, Gandhi disse: “pode ser que, através dos negros, a mensagem não adulterada da não-violência seja entregue ao mundo”. Dezenove anos depois dessa “profecia”, oito após a morte de Gandhi, surge para a humanidade a figura imponente de Martin Luther King, líder contra o racismo nos EUA que seguia as ideias de não-violência do indiano.

Gandhi convidava para viver em seus ashrams uma série de párias (ou intocáveis, ou dalits), que viviam em condições de igualdade com eles. Ele os chamava de “harijan”, o que significava “filhos de Deus”. Proibia que eles limpassem a latrina, como era comum na Índia – cada pessoa deveria limpar sua própria latrina. E todos deveriam comer na mesma mesa. Uma parente de Gandhi que se negou a comer junto a um pária foi convidada a se retirar do ashram. Gandhi chamou um dos jornais que criou de Harijan. E, em Nova Delhi, criou um lugar chamado “Harijan Sewak Sangh”, uma espécie de ashram onde todos os moradores eram párias, e que tinha escola pública e saúde ayurveda para todos. Gandhi foi viver neste lugar com os párias. Visitei, certa vez, esse ashram, que existe até hoje, e fui inclusive convidado a voltar para viver um tempo entre eles.

Gandhi liderou uma campanha nacional em defesa dos interesses dos párias (ou intocáveis, ou dalits). Logo que a Índia se tornou independente, em 1947, estes indianos ganharam muitos direitos constitucionais, inclusive o de votar e de ter cota no parlamento. Isso não teria sido possível sem a luta de Gandhi. Portanto, é surreal que Sen tenha dito o contrário em seu texto. Seria mais honesto se criticássemos Gandhi por não ter lutado contra o sistema de castas, e não somente pelos direitos dos párias. Sen parece desconhecer a História de seu país.

Machismo
O líder indiano foi, realmente, alguém cuja trajetória teve muitos e graves momentos machistas. Gandhi deixa isso muito claro no livro “Minha vida e minhas experiências com a verdade”. Na juventude, Gandhi não permitia que sua mulher saísse na rua sem a sua companhia – exigência que, diga-se, sua esposa Kasturba nunca cumpriu. Ele sugere, no livro, que quando sentia o desejo sexual, ele procurava Kasturba, sem se importar se ela também tinha este desejo. Em uma interpretação mais profunda, isso pode ser considerado uma relação sexual sem consentimento – e se era de fato sem consentimento, era uma forma de estupro.

Aos 38 anos, Gandhi se tornou celibatário, e nunca mais teve relações sexuais (ele viveu mais quatro décadas depois disso). O ato de tornar-se celibatário também pode ser considerado machista, uma vez que ele nunca consultou sua esposa sobre isso – ela foi praticamente obrigada a se tornar celibatária também. São informações profundamente negativas sobre uma liderança como ele. Mas novamente aqui, temos que relativizar, embora sem deixar de condenar essas atitudes, a partir das circunstâncias geográficas e históricas.

Primeiro, a Índia talvez seja, ainda hoje, o país mais machista do mundo, recordista mundial em estupros e violações ao direito da mulher. Valores machistas estão, ainda, arraigados na sociedade hindu. Gandhi incorporou alguns deles, e visivelmente foi deixando de ostentá-los ao longo da vida, ao menos parcialmente. No auge de seu ativismo político, Gandhi fazia questão de projetar Kasturba à condição de uma das principais líderes da luta por Independência, com posição equivalente à dele em seus ashrams. Escrevia cartas belíssimas para sua esposa – eu mesmo vi alguns originais destes documentos, na Índia. Ele a amava profundamente.

Ela morreu deitada em seu colo, na prisão de Pune, em 22 de fevereiro de 1944. A partir deste dia, ele jejuava e recitava todos os versos da Bhagavat Gitá, escritura hindu, em todos os dias 22 de todos os meses. Afirmava publicamente que ela fora sua maior professora de não-violência. Não é verdade que Gandhi teria a impedido de tomar penicilina quando ela teria pego pneumonia – essa informação, escrita por Sen, é absolutamente falsa. Também é mentira que ela teria morrido dessa pneumonia. Kasturba nunca teve essa doença, mas apenas uma bronquite muito forte. Ela morreu de ataque cardíaco, uma vez que aos 74 anos estava na prisão com o marido.

O fato de Gandhi ter, realmente, dormido em um mesmo quarto com a sobrinha nua, para comprovar sua resistência ao sexo, soa muito forte para nós ocidentais. Aparentemente, também soa para o indiano Sen, cuja mentalidade parece ter se ocidentalizado. Na Índia antiga, dos tempos védicos, talvez não fosse assim. Não sou um profundo conhecedor do período védico, mas pelas conversas informais que tive vivendo naquele país, posso compreender um pouco melhor isso.

Acreditava-se que as energias primárias concentradas nos chacras básicos – o da sexualidade –, poderiam ser revertidas em energias internas mais nobres. Essas energias, “economizadas” com a ausência do desejo sexual, poderiam ser canalizadas para chacras superiores do corpo, e serem indutoras de ação mais concreta, com auto potencial de criatividade. Gandhi acreditava nisso, como muitos outros indianos já acreditaram. Aliás, correntes espiritualistas do mundo inteiro acreditariam nisso. Por isso, ao comprovar que controlava seus desejos sexuais, sentiu-se pronto para empreender uma importante ação não-violenta de combate a opressões. Mesmo que nos pareça estranho a todos nós, é preciso analisar esse acontecimento com contextualização cultural e histórica.

Enfim, eu poderia citar outros momentos polêmicos na trajetória de Gandhi, e outras discordâncias que eu tenho em relação à sua mensagem. Mas, definitivamente, acredito ser importante entender que os seres humanos são, todos, um processo. Gandhi nos deu um exemplo belíssimo de potencial de autocrítica, de transformação pessoal. Ao longo de sua trajetória de meio século de militância política, foi se tornando uma outra pessoa, muito mais interessante do que a original. Mais do que buscar rótulos fáceis para identificá-lo, é preciso prestar louvores à liderança notável que se tornou, e às lições incomparáveis de tática política que nos legou.